BAIRRO AZUL
Do urbanismo, da arquitectura, da vivência

 

Loteado e construído nos anos de 1930 - referindo o essencial da sua imagem que a ampliação da década de 1960 não alterou - o Bairro Azul inscreve-se numa fase particularmente activa do urbanismo e arquitectura de Lisboa.
Determinada por factores estruturais de desenvolvimento - crescimento demográfico, diversificação das actividades económicas, dinamismo expressivo do sector terciário - esta situação expansiva representa-se, nas iniciativas da Câmara Municipal e do Estado, na figura de Duarte Pacheco, grande promotor, enquanto Presidente da Câmara e Ministro das Obras Públicas, do mais notável período de encomendas do Estado da primeira metade do século XX.
Concretamente, em Lisboa, a edificação de equipamentos públicos tão emblemáticos como o Instituto Superior Técnico, a Casa da Moeda ou o Instituto Nacional de Estatística permitiram não só delinear e consolidar novas áreas de expansão urbana, como afirmar a arquitectura modernista como imagem do desejado reconhecimento do Estado Novo. Nesta primeira fase quis-se cortar, na arquitectura como nas artes plásticas, com os estilos historicistas oriundos das primeiras décadas do século.
O clima aberto e dinâmico, assim propiciado, contextualiza uma época construtiva de qualidade, pontuada por obras maiores dos grandes arquitectos de então e potencializada por muitas empresas de construção civil, alicerçadas numa aliança estratégica entre construtores, engenheiros e alguns arquitectos. Destes últimos, é de destacar Cassiano Branco - que, como se sabe, é também autor de peças tão relevantes como o Cinema Éden, o Hotel Vitória ou o Coliseu do Porto - e, vindo de gerações anteriores, Manuel Joaquim Norte Júnior, interessante figura ecléctica que, de 1900 a 1940, foi percorrendo todos os estilos de moda, com eficácia e notável capacidade de adequação.

 

Nascido da desanexação de uma área expressiva da antiga Quinta de Palhavã, o Bairro começa por ser uma operação urbanística elementar: a abertura de três ruas, paralelas entre si, num sítio expectante da cidade nova, no cruzamento indeciso entre a Rua Marquês da Fronteira e a Avenida António Augusto de Aguiar.

A iniciativa terá pertencido a Bernardino Lopes, um dos construtores civis de origem tomarense então muito activos na capital (1), visando, de um modo expedito, a obtenção de elevado lucro. Para isso, ele associou-se, muito particularmente, ao engenheiro Jacinto Bettencourt que, em todas as zonas de construção da cidade de então, aparece como activo promotor de uma arquitectura de prédios de rendimento, ou mais raramente moradias, vocacionados para os extractos mais altos da média burguesia. Em diversas situações, ainda nas avenidas novas, a S. Mamede ou na Rua Braancamp, Jacinto Bettencourt trabalhou em parceria com outro engenheiro, Ávila Amaral, com o arquitecto Cassiano Branco ou, em programas mais convencionais - ou seja menos modernistas - com o arquitecto Norte Júnior.

No caso do Bairro Azul, os promotores adoptaram esta última situação: os prédios, quase sempre em banda contínua, utilizam, como critérios estéticos morfológicos, um conjunto de recursos decorativos (nas grelhagens das portas, portões e sacadas; no tratamento das cimalhas; na marcação verticalizante dos corpos constitutivos e na cenarização das aberturas) que citam, ou recriam, um vocabulário internacional art déco, então muito divulgado em revistas mais ou menos especializadas.
Esta opção era, na Lisboa de finais dos anos 30, indiscutivelmente uma marca de modernidade: não radicalizada, como a que propunha Cassiano Branco - caracterizada pelo despojamento decorativo e pelo manejo plástico das formas arquitectónicas - mas construída sobre princípios tradicionais de simetria e norma, dinamizados pela particularidade retórica de uma pormenorização eficazmente diferenciadora.

Ou seja, os prédios, muito semelhantes no seu processo construtivo - estruturas de suporte horizontal em betão mas paredes de alvenaria - são todos diferentes entre si, utilizando o plano da fachada como espaço de uma espécie de escrita decorativa, feita de linhas de
um geometrismo seco e tendencialmente recticular que se afastava, com deliberação, da bolbosa decoração arte nova da década anterior, mas, também, das volumetrias pobres da arquitectura corrente lisboeta. No interior, os andares ofereciam-se amplos e arejados, dotados de recentes confortos modernos, em termos de infraestruturas funcionais, e também por isso, se
diferenciavam das plantas acanhadas e excessivamente subdivididas que eram norma da edificação média, mesmo sob o formulário da estética do modernismo despojado.

Dois outros factos devem ser considerados para a plena apreciação da particularidade do Bairro: em primeiro lugar, a eficaz estratégia urbanístico- arquitectónica que lhe criou uma frente espectacular nos dois gavetos da entrada da Avenida Ressano Garcia, ocupados pelos prédios mais sumptuosos do conjunto, com ampla visibilidade da Rua Marquês da Fronteira e da Avenida António Augusto de Aguiar que dinamizam e enobrecem também.
Na minha opinião, esta solução, delineada e executada por Jacinto Bettencourt, marca, com eficácia, a ultrapassagem positiva de uma arrastada incapacidade anterior de propor uma forte imagem da cidade, bem visível na pobreza epocal das grandes praças da nova Lisboa, tanto o Marquês de Pombal como o Saldanha, no Campo Pequeno ou na entrada do Campo Grande. Ao contrário do que nestes espaços nobres da cidade burguesa acontecia, no Bairro Azul há um pórtico de entrada que cumpre a dupla função de apresentar e resguardar o interior, ao mesmo tempo que enriquece, com conivente diálogo, as marcas dispersas do eclectismo arquitectónico de uma das saídas da cidade, circulando entre o palácio barroco de Palhavã, o parque revivalista de Santa Gertrudes (depois da Fundação Calouste Gulbenkian) e os discretos palacetes burgueses da Marquês da Fronteira, traçados, nos anos de 1900, por Nicola Bigaglia e Miguel Ventura Terra.

Ultrapassado esse "pórtico" arquitectónico expressivo, somos confrontados com a segunda particularidade do Bairro: para lá das diferenças das soluções decorativas das fachadas, eles são, como já se disse, uniformes, em termos de cércea e de dignidade dos lotes, aqui ou ali destacados mas sem que tal quebre o ritmo urbano da sua implantação e presença. Este facto, comum em qualquer cidade europeia, é raríssimo em Lisboa, à excepção da Baixa pombalina. Concretamente, sabe-se que uma das maiores fragilidades das avenidas novas, em termos da sua salvaguarda patrimonial, foi a ausência de normas arquitectónicas precisas e constrangentes. Na sua ausência, cada promotor pôde construir o que lhe apeteceu: prédios, moradias, uns modestos, outros ostensivos, breves ou alongados. Na mesma época, noutras zonas da cidade esse descuido de orientação arquitectónica foi corrente e, sem dúvida, empobrecedor da capital primo-novecentista. No Bairro Azul, pelo contrário, a rapidez da fase edificatória do final dos anos 30 e a eficácia do delineamento económico da operação permitiram que ele seja um conjunto coerente, onde o olhar descansa mas não se fatiga, tanto pelas reduzidas dimensões do todo, como pela energia comunicativa da particularidade, renovada em cada prédio, através dos recursos decorativos das fachadas.

(1) - Este, e outros dados, foram-me fornecidos pela Senhora Dra. Ana Maria Alves de Sousa, membro promotor do Grupo de Moradores do Bairro Azul, a quem agradeço. Em relação à importância dos "tomarenses" na edificação de Lisboa ver o opúsculo Os construtores civis tomarenses e o desenvolvimento da construção urbana em Lisboa, publicado, em Lisboa, em 1946, e cujo autor continua a ser apenas conhecido pelo pseudónimo Filius Populi. Na vastíssima lista que enumera, é, efectivamente, citado o nome de Bernardino Lopes, entre os construtores civis de Tomar "que ainda existem" (p.16).

 

A partir dos anos 40, o Bairro Azul surge, na crónica da cidade e nas memórias de muitos lisboetas, como um sítio de viver peculiar. Discreto, classe média alta, como depois se há-de dizer, longe do bulício das avenidas novas ou já das novíssimas (à Avenida de Roma), ele desenvolveu um ritmo que podemos considerar "interno": alimentado por um pequeno comércio operativo, instalado ao rés-do-chão, poucos de fora o frequentavam e menos ainda precisavam de o cruzar. Era, por isso, íntimo, familiar e tranquilo - como os bairros das grandes cidades costumam ser - protegido dos eixos de circulação exterior mas próximo deles para se sentir plenamente lisboeta. E se particularidade epocal da arquitectura decorativa das fachadas era parte importante do seu específico encanto, ela era vivificada pelos ritmos quotidianos de quem nele habitava. Porque, como se sabe, os bairros sem gente são cenários que depressa estiolam. Não acontecia assim no Bairro Azul onde gerações sucessivas de moradores o souberam manter, com rara dignidade e sentimento de mútua pertença.

 

Perante o que ficou dito, compreende-se a mágoa e a indignação que partilho com todos os que se recusam a assistir ao assassinato de um belo bairro lisboeta dos anos 30 que herdámos quase sem mácula patrimonial.
Transformá-lo numa incómoda via de acesso a gigantescos equipamentos, mais ou menos públicos, mais ou menos privados, significa duas coisas: uma insuportável incúria patrimonial e
uma desqualificada cegueira urbanística. E terá duas consequências: o cansaço e a fuga dos últimos moradores resistentes e, depois, a plena tercialização de casas - vamos acreditar que, pelo exterior, serão mantidas - que foram feitas para serem habitadas e foram-no ininterruptamente desde há sessenta nos, na comovente acumulação de histórias que vão entretecendo a História das cidades.

Sendo olisipógrafa do que se costuma considerar os períodos menos nobres de Lisboa - o século XIX e as primeiras décadas do século XX - gostaria de alertar para a importância formativa de preservar os espaços urbanos oriundos desse tempo em que a capital tão timidamente foi entrando na situação contemporânea. O Bairro Azul, e poucos outros, configuram, neste domínio de construção da História, uma situação raríssima: podem preservar-se espaços activos de vida, com todas as funções urbanas que lhe são consubstanciais, e não peças soltas de um discurso patrimonialista que depois sempre defendemos mal.
E é desejável que não se utilizem argumentos do tipo de que se trata de arquitectura de engenheiros e de promotores em busca do lucro: também a Lisboa pombalina foi feita por engenheiros e deverá ser (já deveria ser) património mundial, e a Lapa foi promovida por improvisados promotores, aristocratas, religiosos e recentes burgueses, para rentabilizar a procura de terrenos seguros pós-terramoto.

Como a corajosa Comissão de Moradores do Bairro Azul já provou, o Bairro reúne todas as condições para ser classificado. E tal tornou-se indispensável para que a vida que nele existe não estiole. Mas a classificação visa também ser uma via propiciatória para o requalificar: em termos de estacionamento, de restrição de circulação, de equipamentos urbanos, de apoios ao pequeno comércio, de reavaliação das sua componente vegetal.
Por isso, agradeço a reflexão que me foi solicitada e proponho-me, em indispensável articulação com os qualificados serviços do Arquivo Histórico Municipal, orientar alguns dos trabalhos dos
meus alunos da licenciatura em História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (vizinha do Bairro, do outro lado do parque Gulbenkian) para continuarmos a estudar este belo bairro, prédio a prédio, com a exaustividade metodológica que, quando bem orientada, frutifica em novas pistas para pensarmos a cidade. O que, como se sabe, é uma forma operativa de a amar e proteger.

 

Raquel Henriques da Silva
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa